Cólica não é uma doença. É o nome que se dá à dor abdominal do cavalo, que pode ter dezenas de causas: gás acumulado, impactação de alimento, deslocamento de alça intestinal, torção, parasitas, areia ingerida com o capim. Algumas resolvem sozinhas em uma hora. Outras matam em poucas horas se não houver cirurgia. O problema é que, nos primeiros minutos, os sinais são parecidos.
Por isso a regra do criador é uma só: cólica é emergência até o veterinário dizer o contrário. Este artigo ajuda a reconhecer os sinais, agir corretamente enquanto o veterinário não chega e, principalmente, prevenir.
Por que o cavalo é tão sujeito a cólica
O trato digestivo do cavalo evoluiu para receber pequenas quantidades de forragem ao longo de todo o dia. Ele não vomita, tem um intestino muito longo com alças que se movem e um ceco grande onde a fibra fermenta. Qualquer mudança brusca (dieta, água, rotina, estresse, verminose) desorganiza esse sistema.
Sinais de alerta
Os sinais vão do sutil ao dramático. Quanto mais cedo você identificar, melhor o prognóstico.
Sinais leves (começo)
- Cavalo parado, apático, sem interesse pela comida.
- Olha para o flanco com frequência.
- Raspa o chão com o anterior, sem motivo.
- Deita e levanta repetidamente.
- Poucas fezes, ou fezes ressecadas.
- Estica o corpo como se fosse urinar, sem urinar.
Sinais moderados a graves
- Rola no chão, às vezes com violência, sem se sacudir depois.
- Chuta a própria barriga.
- Sua sem ter feito esforço.
- Respiração acelerada; mucosas da gengiva escuras, arroxeadas ou muito pálidas.
- Abdome distendido.
- Ausência de sons intestinais quando se encosta o ouvido no flanco.
Um dado objetivo que ajuda o veterinário: a frequência cardíaca. Em repouso, o cavalo adulto fica entre 28 e 44 batimentos por minuto. Acima de 60, a dor é forte; acima de 80, o quadro costuma ser cirúrgico. Aprenda a medir o pulso na artéria facial (na borda da mandíbula) ou com estetoscópio atrás do cotovelo esquerdo.
O que fazer nos primeiros minutos
- Ligue para o veterinário imediatamente. Não espere "para ver se passa". Informe os sinais, a frequência cardíaca se conseguir medir, a cor das mucosas, quando o animal comeu e defecou pela última vez.
- Retire toda a comida. Feno, ração, capim: nada. Água pode ficar disponível, salvo orientação contrária.
- Leve o animal para um local seguro, com piso macio (areia, grama), longe de cercas, cochos e objetos em que ele possa se machucar ao rolar.
- Caminhe com o cavalo se ele estiver tentando rolar com violência, para reduzir o risco de trauma. Caminhada leve, por alguns minutos de cada vez. Não force um animal exausto a andar sem parar.
- Anote tudo: horário de início, frequência cardíaca, se defecou, se urinou, temperatura se tiver termômetro.
O que não fazer
- Não dê medicação por conta própria. Analgésicos e antiespasmódicos mascaram a dor e atrapalham o diagnóstico; alguns são perigosos em determinados tipos de cólica. Só com orientação do veterinário.
- Não aplique óleo ou remédio pela boca com seringa. Risco alto de o líquido ir para o pulmão.
- Não faça o cavalo andar por horas. A ideia de "andar até passar" causa exaustão e não resolve a causa.
- Não deixe o animal sozinho. O quadro pode piorar em minutos.
O que o veterinário vai fazer
O exame clínico da cólica inclui, em geral, auscultação do abdome, medida de frequência cardíaca e respiratória, avaliação das mucosas, palpação retal e passagem de sonda nasogástrica (que também alivia o estômago se houver refluxo). A partir disso, o veterinário decide entre tratamento clínico (analgesia, fluidos, laxantes pela sonda) e encaminhamento para cirurgia. Cólicas cirúrgicas têm janela curta: quanto antes o animal chega ao hospital, maior a chance.
Vale ter na parede do haras o contato do veterinário de rotina, de um segundo profissional para emergências e do hospital veterinário mais próximo com capacidade cirúrgica.
Prevenção: onde o criador realmente ganha o jogo
A maioria das cólicas está ligada ao manejo, e é aí que o esforço compensa:
- Água limpa e à vontade, o dia inteiro. Cavalo que bebe pouco (água suja, quente ou distante) impacta.
- Forragem como base da dieta. Capim e feno de qualidade, em quantidade, o dia todo. Concentrado (ração) em porções pequenas e frequentes, nunca em uma ou duas refeições grandes.
- Toda mudança de dieta é gradual, ao longo de 7 a 14 dias. Isso vale para trocar a marca da ração, introduzir capim novo ou mudar de piquete.
- Controle de verminose por exame, como explicamos no calendário sanitário. Verminose é causa clássica de cólica em potros e animais jovens.
- Cuidado com areia. Em pasto ralo ou solo arenoso, o cavalo ingere areia junto com o capim e ela se acumula no intestino. Alimente em cocho ou sobre lona, e converse com o veterinário sobre protocolos com psyllium.
- Dentes em dia. Cavalo que mastiga mal engole alimento mal triturado. Avaliação odontológica pelo menos uma vez por ano.
- Rotina. Horários de alimentação regulares e transições calmas (viagem, evento, mudança de baia) reduzem o estresse, que é gatilho conhecido.
Depois da cólica
Animal que passou por cólica clínica volta à alimentação aos poucos, conforme orientação, e merece atenção redobrada nas 48 horas seguintes. Animal operado tem protocolo próprio de recuperação, que pode levar meses até o retorno ao trabalho.
Anote o episódio na ficha individual. Cavalos com cólicas repetidas precisam de investigação da causa, e não só de tratamento do sintoma.
Para continuar lendo
- Calendário sanitário do cavalo: vacinas, vermifugação e exames
- Mangalarga Marchador: características e padrão da raça
Fonte: consenso clínico veterinário sobre síndrome cólica em equinos e manejo preventivo. Este artigo é informativo e não substitui a avaliação do médico veterinário. Em caso de suspeita de cólica, ligue para o veterinário imediatamente.