Vermifugação de cavalo é uma das rotinas mais repetidas em qualquer haras e, ao mesmo tempo, uma das mais mal feitas. O hábito de dar vermífugo no plantel inteiro a cada dois ou três meses, sempre com o mesmo produto, parecia seguro. Hoje se sabe que ele gasta dinheiro, cansa o animal e ajuda a criar vermes que deixam de morrer com o remédio.
Neste artigo vai a lógica do controle estratégico: o que o exame de fezes mostra, por que o pasto importa tanto quanto o frasco, como montar um calendário individual e quais são os riscos de vermifugar no escuro. O calendário completo de vacinas e exames está em calendário sanitário do cavalo: vacinas, vermifugação e exames. Aqui o foco é só o verme.
Por que o calendário fixo deixou de ser a regra
Os vermes do cavalo têm um ciclo simples de entender. O animal adulto elimina ovos nas fezes, os ovos viram larvas no pasto, e o cavalo se infecta de novo ao pastar. Cada vermifugação mata uma parte dos parasitas, mas sempre sobram alguns. Se esses sobreviventes são justamente os que resistem ao princípio ativo, são eles que passam a contaminar o pasto, e a próxima geração já nasce mais difícil de tratar.
As diretrizes de controle de parasitas da associação americana de veterinários de equinos (AAEP), revisadas em 2024, apontam duas práticas a abandonar: vermifugar em intervalos fixos durante o ano todo e alternar classes de vermífugo de forma indiscriminada. A mesma fonte lembra um limite importante: nenhum produto elimina todos os estágios do parasita dentro do cavalo. Ou seja, mais vermífugo não significa cavalo “limpo”.
O alvo principal desse controle são os pequenos estrôngilos (ciatostomíneos), parasitas do intestino que dominam a maioria dos plantéis adultos. Existem outros, como os vermes redondos de potro (Parascaris), as tênias e as larvas de mosca que se alojam no estômago, e cada grupo pode pedir uma conduta diferente. Quem define isso para o seu haras é o veterinário.
Controle estratégico: tratar com informação
Controle estratégico quer dizer usar informação para decidir quando e em quem vermifugar. Em linhas gerais, o que as diretrizes recomendam é:
- Dose de base: todos os cavalos adultos recebem um tratamento uma ou duas vezes por ano, no momento que o veterinário indicar para a sua região.
- Exame de fezes (contagem de ovos por grama, o OPG): feito uma ou duas vezes por ano para separar os animais em baixos, médios e altos eliminadores de ovos.
- Altos eliminadores: são tratados com mais frequência, guiados pela contagem. Em geral, uma minoria do plantel responde pela maior parte dos ovos que vão para o pasto.
- Teste de eficácia: uma vez por ano, comparar a contagem antes e depois do tratamento para confirmar se o vermífugo ainda funciona naquela propriedade.
Esse último ponto é o que quase ninguém faz e o que mais faz diferença. Funciona assim: coleta-se a fezes antes de vermifugar, repete-se a coleta algumas semanas depois e compara-se. Se a contagem não cai como deveria, o princípio ativo perdeu eficácia naquela criação, e continuar usando é jogar dinheiro fora. O veterinário diz o intervalo certo entre as duas coletas e o corte de queda esperado para cada produto.
O exame de fezes: o que ele diz e o que não diz
O OPG conta quantos ovos de verme aparecem em uma quantidade padrão de fezes. É barato perto do custo de vermifugar todo mundo várias vezes por ano, e dá uma fotografia de quem está contaminando o pasto.
Alguns cuidados para não se enganar:
- Época da coleta: a amostra deve ser colhida depois que o efeito do último vermífugo já passou, e o veterinário informa quanto tempo esperar para cada produto.
- Amostra fresca: coletar logo após a defecação, identificar o animal e levar rápido ao laboratório, em recipiente fechado e refrigerado, conforme orientação do laboratório.
- Não é exame de doença: a contagem não diagnostica o dano que as larvas causam na parede do intestino. Um cavalo com contagem baixa pode estar doente por parasitas, e um com contagem alta pode estar bem. A contagem serve para decidir o manejo do plantel, não para fechar diagnóstico de um animal com sintomas.
- Cavalo com sinal clínico: emagrecimento, pelo sem brilho, cólicas repetidas ou diarreia pedem avaliação veterinária, e não só um vermífugo extra. Veja os sinais de alerta em [cólica em cavalos: sinais e o que fazer](/blog/colica-em-cavalos-sinais-e-o-que-fazer).
Manejo de pasto: metade do controle
O vermífugo atua no cavalo. Mas a reinfestação acontece no pasto, e é nele que o criador tem mais controle sem gastar com remédio.
- Lotação moderada: pasto superlotado concentra fezes, e o cavalo é obrigado a pastar perto delas.
- Retirada de fezes: recolher as fezes dos piquetes com frequência reduz a carga de larvas disponíveis. Em baias e piquetes pequenos isso é muito eficiente.
- Rotação de piquetes: dar descanso ao pasto ajuda, mas o descanso precisa ser planejado com o clima da região, porque as larvas sobrevivem de formas diferentes na seca e na chuva.
- Separar categorias: potros, éguas paridas e altos eliminadores merecem piquetes próprios, para não infectar todo o plantel.
- Animais novos: quem chega ao haras deve ser examinado e tratado antes de entrar nos piquetes do plantel.
Como a população de vermes varia com chuva e temperatura, a época em que o tratamento rende mais no Recôncavo Baiano pode ser diferente da de outras regiões. Esse ajuste não se copia de manual de outro estado: pergunte ao veterinário que conhece a sua propriedade.
Calendário individual: do plantel para o animal
O calendário bom é o do animal, e não o do haras. Cada cavalo ou égua deve ter na ficha:
| Registro | Para que serve |
|---|---|
| Data e resultado de cada OPG | Mostra se o animal é baixo, médio ou alto eliminador ao longo do tempo. |
| Produto, princípio ativo e dose usados | Evita repetir o mesmo princípio ativo sem necessidade e permite avaliar eficácia. |
| Peso estimado ou medido | A dose é por peso. Subdosar favorece resistência e superdosar é risco desnecessário. |
| Data do tratamento | Define quando coletar o próximo exame e quando tratar de novo. |
| Categoria (adulto, potro, égua gestante ou parida) | Cada categoria tem protocolo próprio definido pelo veterinário. |
Potros e éguas em fim de gestação ou recém-paridas fogem da regra do adulto. Os jovens são mais sensíveis aos vermes e as diretrizes tratam essa categoria à parte, sem a lógica de tratar só pelo exame. Se você cria potros, siga o protocolo que o veterinário definir. Para a fase inicial, vale ler também potro Mangalarga Marchador: primeiros meses e início de doma.
Riscos de vermifugar no escuro
Vermifugar sem exame, sem peso e sem registro traz riscos concretos:
- Resistência: tratar animais que nem estavam com carga alta aumenta a pressão de seleção sobre os vermes. Quando o vermífugo para de funcionar, o criador só percebe depois que o problema aparece.
- Subdose: estimar o peso "no olho" e errar para menos deixa sobreviventes. Fita de pesagem ou balança dão um número melhor, e o veterinário orienta.
- Falsa segurança: o cavalo recém-vermifugado ainda pode ter larvas encistadas na parede do intestino, que não aparecem no exame de fezes.
- Interação com o estado do animal: égua gestante, potro muito novo, animal debilitado ou com histórico de cólica pedem avaliação antes de qualquer produto. Não aplique vermífugo "por conta" nesses casos.
Resumo prático para o criador
- Faça o OPG do plantel uma ou duas vezes por ano e registre por animal.
- Trate com mais frequência só os altos eliminadores, conforme o veterinário.
- Confirme uma vez por ano se o vermífugo ainda reduz a contagem de ovos.
- Cuide do pasto: lotação, retirada de fezes, rotação e separação de categorias.
- Pese ou estime o peso com método e dose pelo peso.
- Mantenha a ficha individual atualizada.
Este conteúdo é informativo e não substitui o médico veterinário responsável pelo seu plantel. Produto, dose, intervalo e época de tratamento dependem da região, da idade, do uso e da condição de cada animal, e só o veterinário que examina o cavalo e conhece a propriedade pode definir isso.
Se você quer conhecer o plantel do Haras Cruz Divina e conversar sobre criação de Mangalarga Marchador, fale com a gente pelo WhatsApp (75 98148-4820) ou pelo Instagram @harascruzdivina.
Fontes: AAEP, Internal Parasite Control Guidelines (revisão de 2024), https://aaep.org/guidelines-resources/internal-parasite-control-guidelines/ ; dvm360, Update: AAEP parasite control guidelines, https://www.dvm360.com/update-aaep-parasite-control-guidelines