Dentes do cavalo: como cuidar e quando chamar o veterinário

Dentes de cavalo mal cuidados causam dor, perda de peso e briga com a embocadura. Veja sinais de problema, pontas de esmalte e a frequência de revisão.

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Foto editorial de Mangalarga Marchador sobre dentes de cavalo

Os dentes de cavalo são um dos assuntos mais negligenciados no manejo de um plantel. O animal come, trabalha e parece bem, então ninguém olha a boca. Só que o cavalo tem dentes que crescem durante boa parte da vida, desgastam de forma desigual e podem machucar a própria boca. Quem cria Mangalarga Marchador e usa o cavalo na estrada, na doma ou na pista precisa entender o básico de odontologia equina, porque muita reclamação atribuída a “temperamento” ou “falta de preparo” nasce de uma boca que dói.

Por que o dente do cavalo dá problema

O cavalo mastiga com movimentos laterais, e a arcada de cima é mais larga que a de baixo. Com isso, o desgaste não é parelho: surgem as pontas de esmalte, pequenas arestas cortantes que se formam na borda externa dos dentes de cima e na borda interna dos de baixo. Elas encostam na bochecha e na língua a cada mastigada.

Uma ponta pequena pode passar despercebida. Quando cresce, vira ferida, e a ferida faz o cavalo mastigar pior, engolir comida mal triturada e, com o tempo, perder condição corporal mesmo com ração e pasto de qualidade. Comida mal mastigada também aproveita menos e pode contribuir para distúrbios digestivos, tema que conversamos em cólica em cavalos: sinais e o que fazer.

Além das pontas, o veterinário que cuida da boca procura outros problemas:

  • Ganchos e rampas, saliências nos dentes da frente ou de trás das arcadas que atrapalham o movimento da mandíbula.
  • Dente de lobo, um dente pequeno, sem função na mastigação, que em alguns cavalos fere a boca ou bate na embocadura.
  • Desgaste irregular, em que parte da arcada fica mais alta que o resto.
  • Dentes quebrados, soltos ou com infecção, que causam dor forte e às vezes mau cheiro.
  • Desalinhamento dos incisivos, que muda a forma como o cavalo apreende o capim.

Sinais de que a boca incomoda

O cavalo não reclama com palavras, e muitos escondem a dor. Por isso vale observar a comida, o corpo e o comportamento sob a cabeçada.

Na hora de comer:

  • deixa cair comida da boca ou mastiga de um lado só;
  • demora mais que o normal para terminar a ração;
  • salivação excessiva;
  • pedaços de feno ou capim inteiros no esterco, ou grãos pouco digeridos;
  • emagrecimento sem outra explicação.

Na hora de montar e trabalhar:

  • balança ou joga a cabeça;
  • põe a língua para fora, mastiga o freio ou tenta pegá-lo com os dentes;
  • resiste à embocadura, fica duro de boca ou foge da mão;
  • tem dificuldade em flexionar a nuca e em fazer curvas para um dos lados;
  • perde a regularidade da marcha ou mostra relutância em executar exercícios.

Nenhum desses sinais prova, sozinho, que o problema é dental. Cabeça jogada pode ser sela, casco, dor nas costas ou mão pesada do cavaleiro. O ponto é que a boca precisa entrar na lista de suspeitas, e ser examinada cedo, antes de gastar meses tentando corrigir “no treino” um problema que é físico.

Dente, embocadura e desempenho

No cavalo de sela, a conversa entre a mão do cavaleiro e a boca do animal passa pela embocadura. O freio ou bridão pressiona a língua, as barras e as bochechas contra os dentes de trás. Se existe uma ponta cortante ali, cada toque de rédea machuca de verdade. O cavalo aprende a se defender: levanta a cabeça, aperta a mandíbula, foge do contato.

Para o Mangalarga Marchador, que depende de equilíbrio, nuca solta e andamento regular na marcha, isso pesa. Um cavalo que não aceita a embocadura raramente entrega a marcha com a leveza esperada, e o problema costuma ser confundido com falha de doma. Se você acompanha a formação de um potro, vale ler doma racional do Mangalarga Marchador e lembrar que o potro que troca de dentes ou começa a usar embocadura merece checagem de boca antes de qualquer cobrança de rendimento.

Também pense na alimentação. Um cavalo com boca dolorida come menos e pior, e o ajuste de dieta que você faz seguindo alimentação do cavalo Mangalarga Marchador perde efeito se o animal não consegue mastigar direito.

Frequência de revisão

A referência mais usada é a da associação americana de veterinários de equinos (AAEP): cavalos adultos devem ter a boca examinada pelo menos uma vez por ano, e animais jovens, de cerca de dois a cinco anos, merecem revisão mais frequente, porque estão trocando dentes e a boca muda rápido. Cavalos idosos também podem precisar de acompanhamento mais próximo, pois o desgaste avança e dentes podem se perder.

Esse é um ponto de partida, não uma regra para o seu cavalo. O intervalo certo depende da idade, do uso, da dieta e do que o veterinário encontrar no último exame. Uma boa prática é encaixar a revisão da boca na rotina que já existe no haras, junto das vacinas e vermífugos descritos em calendário sanitário do cavalo: vacinas, vermifugação e exames.

Como é o exame e o que esperar

O exame dentário completo costuma ser feito com o animal sedado e com um abridor de boca (espéculo), porque sem isso é impossível enxergar e alcançar os dentes de trás. O veterinário avalia a arcada inteira, procura feridas, ganchos, dentes soltos e desgastes irregulares. Quando necessário, faz o nivelamento (em inglês, “floating”), que consiste em alisar as pontas cortantes sem tirar o que o cavalo precisa para triturar o alimento.

Alguns cuidados práticos:

  • escolha um médico veterinário, de preferência com experiência em odontologia equina; remover dente ou lixar demais é procedimento que pede formação;
  • combine o jejum e o manejo do dia com o profissional, porque a sedação exige preparo;
  • depois do procedimento, observe o apetite e a boca nos dias seguintes e avise o veterinário se houver recusa de comida, sangramento ou inchaço;
  • peça orientação sobre quando voltar a montar e quando fazer a próxima revisão;
  • anote a data e os achados na ficha do animal, assim a próxima visita parte do histórico.

Quando não esperar a revisão anual

Chame o veterinário sem esperar a data marcada se o cavalo parar de comer, mostrar dor evidente ao mastigar, tiver inchaço no rosto, secreção no nariz de um lado só, mau cheiro na boca ou sangue. Esses sinais podem indicar dente infeccionado ou ferida mais séria. O mesmo vale para a queda brusca de rendimento sob sela sem outra causa aparente.

Importante: este texto é informativo e não substitui o médico veterinário responsável pelo seu plantel. Só o profissional examina a boca, define se há necessidade de tratamento, escolhe a sedação e orienta a frequência de revisão para cada animal.

Se você está pensando em comprar um cavalo ou potro e quer conversar sobre manejo, criação ou visita ao haras, fale com o Haras Cruz Divina pelo WhatsApp (75 98148-4820) ou pelo Instagram @harascruzdivina.

Fontes: AAEP, “Introduction to Equine Dentistry” (https://aaep.org/wp-content/uploads/2025/02/AAEP-HOE_Introduction-to-Equine-Dentistry.pdf); UF/IFAS Extension, publicação VM273 sobre cuidados dentários em equinos (https://edis.ifas.ufl.edu/publication/VM273).