Cuidar de uma égua gestante começa antes do parto e termina bem depois dele. Quem cria Mangalarga Marchador sabe que a matriz é metade do potro: a saúde, a condição corporal e o manejo dela durante a prenhez aparecem no tamanho, no vigor e na primeira mamada do filhote. A boa notícia é que a maior parte do trabalho é rotina bem feita, sem mistério. O que muda é a atenção, principalmente nos últimos meses.
Este guia reúne o essencial para o criador: como confirmar a gestação, o que ajustar na alimentação, como pensar as vacinas, o manejo de pasto, os sinais de que o parto está perto e o que deixar pronto. Cada propriedade tem sua realidade, e o calendário final de cada égua deve ser definido pelo veterinário responsável.
Confirmação da gestação e acompanhamento
Cobriu ou inseminou, não pode ficar na dúvida. A confirmação é feita pelo veterinário, normalmente com ultrassom, e o ideal é repetir o exame mais de uma vez nas primeiras fases, porque a perda embrionária precoce existe e o criador só percebe quando a égua volta ao cio ou simplesmente não pare. Se o seu programa usa inseminação artificial, o mesmo profissional que acompanhou o ciclo costuma definir os dias dos exames de confirmação.
Anote tudo desde o início:
- data da cobertura ou inseminação e nome do garanhão;
- datas dos exames e o resultado de cada um;
- vacinas e vermífugos aplicados, com produto e data;
- qualquer corrimento, queda de apetite, cólica ou mudança de comportamento.
Essa ficha vale ouro quando o parto se aproxima, porque a data prevista de parto é uma estimativa. Éguas podem parir antes ou depois do esperado, e a ficha ajuda o veterinário a decidir se está tudo dentro do normal.
Outro cuidado que o veterinário avalia é a vulva: se a égua tem sutura de Caslick, ela precisa ser aberta antes do parto, para evitar rasgos na região do períneo quando o potro passa.
Alimentação da égua gestante
Nos primeiros meses de gestação a égua pode seguir uma dieta de manutenção, com pasto de boa qualidade, volumoso e o suplemento mineral adequado. Segundo o Manual Veterinário Merck, a rotina de pasto ou feno com concentrado costuma bastar até por volta do sétimo ou oitavo mês. É no terço final que o feto cresce mais, e a ração precisa subir de forma gradual, nunca de um dia para o outro.
O ponto de atenção é a condição corporal. A referência citada pelo Merck para a hora do parto é uma nota entre 6,5 e 7,5 numa escala de 9 pontos (ou seja, égua em carne, sem gordura em excesso). Os dois extremos custam caro:
- **Égua magra demais:** produz menos leite e tem mais dificuldade de se recuperar e de voltar a emprenhar.
- **Égua gorda demais:** corre mais risco de laminite e de dificuldades no parto.
Água limpa e fresca à vontade é parte da nutrição, especialmente quando a égua entra em lactação. Se você precisa de uma base sobre dieta do plantel, veja o artigo sobre a alimentação do Mangalarga Marchador, e lembre que a formulação do concentrado para a fase final deve ser ajustada pelo veterinário ou por um nutricionista, conforme a égua e o pasto disponível.
Vacinas e vermifugação na prenhez
Aqui está a parte em que o criador mais erra por conta própria. Vacina e vermífugo na gestante exigem cuidado com o momento da aplicação e com o produto. De acordo com o Manual Merck, a orientação geral é evitar vacinas nos primeiros 90 dias de gestação, com exceção possível de rinopneumonite e botulismo, e fazer o reforço das vacinas de encefalomielites e tétano cerca de 30 dias antes do parto. Esse reforço pré-parto tem uma razão: a égua passa defesas ao potro pelo colostro, o primeiro leite.
A Extensão da Purdue University, nos Estados Unidos, descreve um esquema que inclui doses contra rinopneumonite em fases determinadas da gestação, além do reforço pré-parto. Os protocolos variam de país para país e conforme as doenças presentes na região. No Brasil, o calendário correto para a sua égua, na Bahia ou em outro estado, é o que o veterinário local definir. O artigo sobre o calendário sanitário do cavalo ajuda a entender a lógica geral, e o texto sobre vermifugação mostra por que não se improvisa dose.
Nunca aplique medicamento “por precaução” numa égua prenhe sem perguntar. Nem todo produto é seguro na gestação.
Manejo de pasto e exercício
A égua gestante vai bem no pasto. Movimento ajuda a circulação, o tônus muscular e a digestão, e a Purdue recomenda manter a égua o menor tempo possível presa em baia durante a gestação. Alguns pontos práticos:
- Pasto limpo, sem buracos, cercas soltas ou arame farpado, para evitar tombos e ferimentos.
- Lote tranquilo: égua gestante em piquete com animais muito agitados ou dominantes sofre chutes e disputa por comida.
- Cuidado com pasto de qualidade ruim ou plantas tóxicas. Se há dúvida, peça ao veterinário para olhar o piquete.
- Montaria leve pode ser mantida em algumas fases, mas deve ser decidida com o veterinário, e a égua perto do parto deve descansar.
Na proximidade do parto, muitos criadores separam a égua num piquete menor, limpo, próximo da casa, onde ela possa ser observada sem estresse. Quem tem mais de uma matriz prenhe, como é o caso de um plantel com éguas como a Marisol Cruz Divina M6 e a Una Cruz Divina, precisa organizar a ordem de entrada dos animais no piquete de maternidade.
Sinais de parto próximo
Nenhum sinal isolado garante que o parto é em poucas horas. A égua pode apresentar vários e ainda demorar dias, ou parir com poucos avisos. Os sinais mais citados pelos veterinários são:
- aumento do úbere e, depois, formação de cera nas pontas dos tetos;
- relaxamento da vulva e da musculatura ao redor da base da cauda;
- abdômen mais caído;
- mudança na secreção do leite;
- inquietação, sudorese e a égua deitando e levantando.
A égua costuma parir à noite e rápido, e o parto equino é bem diferente do bovino: quando começa de verdade, tudo precisa andar em minutos. De acordo com o Manual Merck, a primeira fase tem de 1 a 4 horas de contrações crescentes, a expulsão do potro leva entre 5 e 15 minutos se não houver complicação, e a placenta deve sair em até 3 horas. Se o potro não nasce rápido depois que a bolsa aparece, ou se a placenta passa de 3 horas retida, é emergência: chame o veterinário na hora, porque o risco de infecção grave e de laminite é real.
Por isso, deixe o telefone do veterinário à mão e combine antes quem atende em caso de parto fora do horário.
O que preparar para o potro nascer bem
Prepare o ambiente antes de a égua dar sinais. O que não pode faltar:
- baia ou piquete limpo, seco e bem iluminado, com cama farta e sem objetos que machuquem;
- luvas, toalhas limpas, fio ou material para o veterinário, e solução antisséptica para o umbigo;
- uma forma de ver a égua sem incomodar, como câmera ou ronda silenciosa;
- um local para guardar a placenta depois, para o veterinário conferir se saiu inteira.
Depois que o potro nasce, observe o relógio. Segundo o Merck, em cerca de 90% dos partos o potro fica em pé em até 2 horas e mama em até 3 horas. O colostro precisa ser ingerido logo, pois a absorção de anticorpos acontece nas primeiras 24 horas de vida, e o veterinário costuma examinar o potro por volta de 12 horas depois do nascimento. O umbigo deve ser mergulhado em antisséptico várias vezes por dia, nos dois ou três primeiros dias, na solução indicada pelo veterinário. Mantenha égua e potro em local protegido por 24 a 48 horas e acompanhe o filhote de perto na primeira semana. Para o que vem depois, leia sobre as vacinas e cuidados do potro no primeiro ano.
Ressalva importante
Este texto é informativo e não substitui o acompanhamento de um médico-veterinário. Doses, produtos, datas de vacina e a conduta em qualquer sinal de problema (corrimento, cólica, perda de apetite, parto que não progride) devem ser definidos pelo veterinário responsável pela sua égua, que conhece o histórico e o ambiente da propriedade.
Se você está planejando uma cobertura, escolhendo uma matriz ou quer conhecer os animais do haras, fale com o Haras Cruz Divina pelo WhatsApp (75 98148-4820). Também pode ler o guia sobre como escolher uma égua matriz.
Fontes: Merck Veterinary Manual, “Perinatal Mare and Foal Care” (https://www.merckvetmanual.com/management-and-nutrition/preventative-health-care-and-husbandry-of-horses/perinatal-mare-and-foal-care); Purdue University Extension, VA-26-W (https://www.extension.purdue.edu/extmedia/VA/VA-26-W.pdf); Valley Vet, “Managing the mare before foaling” (https://www.valleyvet.com/animal-health-articles/managing-the-mare-before-foaling/). Consultadas em 25/10/2026.